sexta-feira, 28 de agosto de 2009

abismos

(marcelo cavalcante)


os horizontes são tão estreitos
que o meu peito pede abismos
e o salto é magistral nas preces
ou é funeral nos egoísmos
além do que aparece
no amém dos catecismos

saltar no abismo
é purgar os pecados
males e mágoas, paus e pragas
nós e nódoas e maus resultados

e os instantes não tão perfeitos levam
um sujeito ao ceticismo
e o velho ancestral enlouquece
na falta real de heroísmo

até que desaparece
na fé pura dos esoterismos

saltar no abismo
é queimar toda grana
é recriar as oficinas
ratos, piscinas, cazuzas e famas

os visitantes da ilusão são rarefeitos
lavam os defeitos desse vandalismo
e o grude gruda nos parapeitos dos sonhos
degradados do exotismo

e a vida escorre no lodo dos leitos
tristes e tolos
dos sorrisos

saltar no abismo
é voltar a manicômios
é danar o paraíso, medos, demônios,
máscaras e matrimônios.

É sair dos trilhos, consumir sucrilhos,
se reproduzir nos filhos
ou nos espelhos invertidos.
É anestesiar o corpo cansado
num livre voejar no espaço
Ícaro louco, de resto bagaço.

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