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terça-feira, 27 de abril de 2010

enigma

(márcio pombo)

semblante é porta
que ao abrir-se exorta
o visitante pasmo,
a enredar-se adiante

eclipsada pelo estigma
daquilo que conceitua o belo
a verdade se faz enigma
em olhos, sorriso, cabelo

pobre poeta
que tem por meta decifrar mistérios
sem valer-se de suas abracadabras
nessa terra onde atitudes falam mais que palavras

ah, se pelo menos fosses tu a esfinge,
teria o poeta em seu curioso estado
o alento doce de ser por ti devorado

e erraria, quantas vezes fossem necessárias
pra saciar a sede dos que tem sede
de ascender ao ápice das descobertas,
aproximando o peixe de sua rede

em tuas pistas - diz o poeta:
encontrei choro, beijos e morros
vi passado, presente e futuro
desmanchando-se impuros,
ontem, hoje, aqui e ali
e vi concluíres, em clara sentença
com a crença de que o tempo não para...

mas se ele, o tempo, não para,
o que dizer do momento em que te vi?

arte

(márcio pombo)

a nudez revela...
pêlos e pelos poros... alma
saber despir-se é refletir-se
num lago de muitas águas

claras, escuras
a cor não importa
desde que a tela surrealista
pontilhada viva em natureza morta
seja pintada com tintas reais
agudas demais pros olhos do cego

o prego, é do todo parte
e o ego serve à arte
que não é plano de descartes
nem descarta o pano de fundo

imundo é o ego falsário
que inunda com suas poses
de pseudoposses e que não reparte
o presente que não ganhou:

"é dando que se recebe"
e artista recebe à vista

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

maya

(márcio pombo)

quero poder
poder dominar
se sou dele, sou ele

minto enquanto sinto
eterno enquanto carne
que não discerne o cerne de todo o controlar

sou deus cego
provando do bem e do mal
do ter e do não ter
do sorrir e do sofrer
e ainda assim não vê
que anda em círculos cada vez mais curtos
em torno de maya
em torno de maya

eu, minha, meu eu...
vozes da ilusão
de um corpo nada sutil

vagando, pó ao pó,
embarcação pirata e suas pilhérias
indo de encontro à tempestade

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Xadrez

(Bernardo Malta e Márcio Pombo)

Mover-se um quadrado
Pra frente ou pra trás
Diferencia um rei
De um peão

Mas sigo em blocos
Em preto e branco
E nunca olho para trás

todos peças desse mesmo jogo
reis, bispos a cavalo, sonhos...

Mas sigo em blocos
Em preto e branco
Bravo, marchando sempre em frente
Sempre em frente

À frente, toda essa geometria
Atrás, divina hierarquia
E por todo lado
Soldados de pedra
dançando cada um no seu quadrado

Na primeira com dois passos vou
Na ilusão de ir além
amém pra frente comandado sou
diagonal, quero comer alguém
vem meu bem!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

cavalcantices

(márcio pombo)

de onde vêm os poetas?
cegonhas de versos
sem vergonhas ou preconceitos
no peito do verdadeiro artista
que sabe que a verdadeira entrega
não carrega a própria vaidade

paixão de adolescente
expressa o verdadeiro artista
e conquista, entusiasta
uma nova casta que cria e recria
o amor que não se desgasta
posto que é pura poesia

é cegonha de mais cegonhas
sem trapos, de alma despida
pois sua inexorável sina
de sócio do clube da esquina
encanta até mesmo em arrotos
escrotos de toscas marmotas
cheirando a esgotos sibaritas

verão

(márcio pombo)

sol
sobre o lombo
quente de amor que arde
em tapas sem dor na carne
libido que já não causa assombro

pelo ombro
meus dedos e seus cabelos
novelos a emaranhar desejos
puxados em submisso apelo

grita! são gritos libertos
que invocam o fim do pecado
queimando em paixão decerto
termômetros de um cio viciado

verão, por fim,
os rostos corados
colados por lábios carmim
sedentos de loucas paixões
e línguas de eternos verões

desumanidade

(márcio pombo)

- estrupício
desde o início
falo do teu vício
choro suplício
de um capadócio
clamor beócio
a esconder teu ócio
silêncio sócio
do mais louco hospício

- enquanto os sucos que corroem o meu próprio bucho
descem ralos digerindo minha indignidade,
pisoteias-me a alma com teu fel discurso
ignorância de quem nunca soube precisar o precisar

- tão difícil
desde o prefácio
sei do meu ofício
fardo propício
a aguentar indócil
o meu patrício
pôr-me no orifício
já sem prepúcio
estuprador no cio

- em teu lamento esqueces-te de duas ricas rimas:
o cálcio que me falta aos ossos duros de doer;
e o bócio que já não me desce goela abaixo
a pedir passagem ao teu preconceito vil, em seu covil

desumanidade em realimentação
adeus humanidade! entrego-me a todas as fomes
desumana idade de trevas, era de imatura ação
Deus humano! dá de comer a todos os nomes

olhos salgados

(márcio pombo)

em meu redor
olhos salgados
em rostos amargos
de lembranças doces,
eclipses do azedo
que a morte não leva.

surda oração
pros dias que vem e vão
além das marias
que ficam então
a enxugar as valias
não mais em questão.

fui água e fui vinho,
fui manso e fui bruto,
lutei com meus moinhos
e agora... luto...

mas não fica puto,
matada ou morrida,
malária ou escorbuto,
se veio pra mim,
despintando-me a tela,
virá para ti
e também para ele,
ele, ele, ela, ela...

e deitado aqui,
onde hoje me prostro,
mostro o que vós também mostrareis:
olhos fechados, já não mais salgados,
profundos vazios que não choram mais.

dispensem o padre,
cumpri meu papel.
vivi meu destino,
fiel combustível
do fogo divino.