sexta-feira, 28 de agosto de 2009

querer-te

(marcelo cavalcante)

Por que querer-te
se melhor (seria) ter-te?
Pra que desejar
sem poder somar-te?

Por que não beber-te,
se me embriago
neste vago vulto de arte,
neste trago de dor e estrago?

Pra que saber-te
se decorar a desmemoria
é esvair o verbo
desnecessário na morte?

Por que vestir-te,
se despir o corpo
é como celebrar o partir
parte por parte, morto?

abismos

(marcelo cavalcante)


os horizontes são tão estreitos
que o meu peito pede abismos
e o salto é magistral nas preces
ou é funeral nos egoísmos
além do que aparece
no amém dos catecismos

saltar no abismo
é purgar os pecados
males e mágoas, paus e pragas
nós e nódoas e maus resultados

e os instantes não tão perfeitos levam
um sujeito ao ceticismo
e o velho ancestral enlouquece
na falta real de heroísmo

até que desaparece
na fé pura dos esoterismos

saltar no abismo
é queimar toda grana
é recriar as oficinas
ratos, piscinas, cazuzas e famas

os visitantes da ilusão são rarefeitos
lavam os defeitos desse vandalismo
e o grude gruda nos parapeitos dos sonhos
degradados do exotismo

e a vida escorre no lodo dos leitos
tristes e tolos
dos sorrisos

saltar no abismo
é voltar a manicômios
é danar o paraíso, medos, demônios,
máscaras e matrimônios.

É sair dos trilhos, consumir sucrilhos,
se reproduzir nos filhos
ou nos espelhos invertidos.
É anestesiar o corpo cansado
num livre voejar no espaço
Ícaro louco, de resto bagaço.

soneto de um amor fantasma

(bernardo malta)

Destilado do mais refinado ódio
Entre todos os sentimentos, o vão
Aos por ele ferido não há o pódio
Pois faz os homens perderem a razão

Almejo, sobre tudo, a perfeição
Desde que ela procurei na solidão
Ao viajar buscando a perdição
Afundando aos pouco na confusão


Nas mais profundas linhas do sofrimento
Vejo que a beleza fere o crucial
Seja o primeiro ou o último momento


Essa é a minha jornada sem final
Pra que o coração, minha luz e tormento,
Por fim ache sua sina, seu Graal

ao meu deus de porcelana

(bernardo malta)

Meu intocável Deus de Porcelana
Acima da crença, acima de tudo
Com palavras belas, apenas engana
A esperança do surdo ouvir o mudo

E já está refutado e provado
Aquele que espera nunca alcança,
Aquele que age é o flagelado,
E aquele que reza morre da crença

Meu inquebrável Deus de Porcelana,
A fé que o move é a que me destrói
Estuprando-me com sua lâmina
Me faz morrer,logo, como herói

Pulsos latejando não exprimem a dor
De olhos sangrando o rubro de minha calma
E, calejado corpo de Judas - traidor!
Imune só às emoções de minha alma

Meu fragmentado Deus de Porcelana,
A fé não passa de um delírio
Um convite para se afogar na lama
E de se distanciar do exílio

Faça-me crer em algo que exista
Não em palavras sacras de sermões
A idéia de ter uma luta em vista
Me encoraja a me prender a ilusões

o pianista cego

(bernardo malta)

Eu nunca me importei
Com o que eu era
Para mim tanto faz
Se hoje Bela, amanhã Fera
Só desejo no final ter paz

Eu nunca me importei
Com o ser ou não ser
Se hoje Deus, amanhã Satanás
Demorou pra perceber
Que para o cego tanto faz


Uma nota para derrota
A estupidez me tira desta rota
E um compasso sujo a traços
Não irá me fazer ver o espaço

As lágrimas marcam meu rosto pálido
Meu mundo, fragmentado em mil partes
Como pode este meu eu inválido?
Fazer parte deste mundo das artes?

"Mais uma nota, minha derrota
A estupidez sempre me esgota
Mais um compasso, ao descompasso
Quem me dera poder ver o espaço

Só é verdadeiro o amor de cego
Sem promessas, sem belas visões
Numa consciência sem aspirações
É inexorável a falta de ego

Meu som não soa mais violento
Minha música, não mais atroz
Fiz no palco o silêncio criar voz
Enquanto o compasso ficava cada vez mais lento ...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

cavalcantices

(márcio pombo)

de onde vêm os poetas?
cegonhas de versos
sem vergonhas ou preconceitos
no peito do verdadeiro artista
que sabe que a verdadeira entrega
não carrega a própria vaidade

paixão de adolescente
expressa o verdadeiro artista
e conquista, entusiasta
uma nova casta que cria e recria
o amor que não se desgasta
posto que é pura poesia

é cegonha de mais cegonhas
sem trapos, de alma despida
pois sua inexorável sina
de sócio do clube da esquina
encanta até mesmo em arrotos
escrotos de toscas marmotas
cheirando a esgotos sibaritas

verão

(márcio pombo)

sol
sobre o lombo
quente de amor que arde
em tapas sem dor na carne
libido que já não causa assombro

pelo ombro
meus dedos e seus cabelos
novelos a emaranhar desejos
puxados em submisso apelo

grita! são gritos libertos
que invocam o fim do pecado
queimando em paixão decerto
termômetros de um cio viciado

verão, por fim,
os rostos corados
colados por lábios carmim
sedentos de loucas paixões
e línguas de eternos verões